Sábado de manhã na Feira da Vila Mariana, e a fila na banca do Seu Geraldo já passa de quinze pessoas às oito horas. Não é exceção — é rotina de quem sabe que comprar carne para o churrasco do domingo começa cedo, com conversa, olho no corte e negociação que faz parte do ritual.
Em maio e junho de 2026, percorremos seis feiras e mercados municipais da zona leste, sul e centro de São Paulo para mapear o que está em alta nas bancas, quanto custa e o que açougueiros recomendam para quem quer variar sem abandonar o sabor.
A picanha ainda manda, mas o preço pesa
A picanha continua sendo o corte mais pedido em todas as bancas visitadas. Em junho, o preço médio encontrado ficou entre R$ 78 e R$ 95 o quilo, dependendo do bairro e da origem da carne — Angus e Wagyu puxam a média para cima nas feiras da zona sul.
Quando o valor passa de R$ 90, açougueiros relatam que clientes pedem alternativas. "O pessoal não deixa de fazer churrasco, mas pergunta o que dá para substituir", diz Geraldo Almeida, 54 anos, que trabalha na Vila Mariana há trinta anos. A resposta dele, repetida em quase todas as bancas: fraldinha e maminha.
Na feira, o açougueiro é consultor. Quem confia no vendedor leva um corte melhor do que quem chega com a receita fechada.
Fraldinha: o corte que mais cresceu
A fraldinha — ou vazio, dependendo da região — apareceu como segunda opção em cinco das seis feiras. Textura firme, boa absorção de tempero simples e preço entre R$ 45 e R$ 62 o quilo a tornam aliada de churrascos para dez ou doze pessoas sem estourar o orçamento.
O segredo, segundo Marcos Vieira, açougueiro no Tatuapé, é pedir para limpar a gordura excessiva sem retirar a capa que protege a carne na grelha. "Muita gente pede sem gordura nenhuma e depois reclama que ficou seca", explica. Ele recomenda fatias de dois dedos de espessura e sal grosso apenas uma hora antes de ir ao fogo.
Maminha, cupim e contra-filé
A maminha surpreendeu pela procura entre clientes mais jovens — muitos descobriram o corte em vídeos e chegam pedindo pelo nome. Preço médio: R$ 52 a R$ 68 o quilo. O cupim, tradicional em churrascos mineiros que chegaram a São Paulo, custa entre R$ 38 e R$ 48 e exige paciência: são duas a três horas de fogo baixo para ficar no ponto.
O contra-filé, versátil e familiar, mantém preço estável entre R$ 55 e R$ 70. Açougueiros da Lapa e da Penha dizem que é o corte de escolha de famílias que fazem churrasco quinzenal — rende bem, aceita ponto malpassado ou ao ponto sem drama.
Como negociar na banca
Feiras paulistanas têm tradição de negociação, mas com regras não escritas. Comprar em quantidade — dois quilos ou mais — costuma render desconto de 5% a 10%. Chegar cedo garante melhor seleção; após as onze horas, as peças premium já foram escolhidas.
Pedir para o açougueiro indicar o corte do dia é estratégia que funciona. "Tem dia que chega uma peça linda de dianteiro que sai mais barato que a picanha e fica igual de boa na grelha", conta Renata Campos, do mercado municipal da Lapa. Ela sugere levar sacola térmica — carne transportada sem refrigeração por mais de quarenta minutos em dia quente perde qualidade rápido.
O que evitar no impulso
Açougueiros alertam para cortes embalados a vácuo vendidos sem orientação: nem sempre a peça visível na vitrine é a que vai para a sacola. Pedir para ver e tocar antes de fechar é direito do cliente. Carne com coloração acinzentada ou excesso de líquido na embalagem são sinais de alerta.
Na atualização desta reportagem, consultamos a Associação dos Açougues de São Paulo, que confirmou alta de 8% no preço médio dos cortes nobres no primeiro semestre de 2026 — reforçando a tendência de busca por alternativas que encontramos nas feiras.