Ilustração de fogueira junina com espetos na brasa

Quando a quadrilha termina e a banda de forró abaixa o volume, a fila que mais cresce nas festas juninas do interior não é a do quentão — é a da fogueira. Espetos de carne, linguiça artesanal e até queijo coalho aparecem nas brancas depois das dez da noite, e o cheiro de fumaça mistura com o de milho cozido e canjica doce.

Em junho de 2026, percorremos três festas de porte diferente — uma em Campina Grande, outra em Ribeirão Preto e uma terceira em uma cidade de quinze mil habitantes no interior de Goiás — para entender como a tradição junina e o churrasco se encontram na prática.

A fogueira como churrasqueira central

Na Paróquia São João Batista, em Ribeirão Preto, a fogueira é montada três dias antes da festa. Lenha seca de eucalipto, empilhada em formato cônico, recebe espetos de aço comprados no atacado pela comissão de festa. "A gente não chama de churrasco, chama de espeto na fogueira", diz Dona Neuza, 71 anos, que coordena a cozinha há doze edições.

O cardápio é simples e repetido em boa parte do país: linguiça calabresa, carne de porco em cubos, frango temperado com alho e sal grosso. O queijo coalho surgiu nas últimas cinco edições, puxado por jovens que voltam da cidade grande com novidades. "Antigamente era só carne de porco. Hoje o pessoal quer opção", completa Neuza.

A fogueira junina não é improviso — tem gente responsável, tem horário de acender e tem fila que começa antes da meia-noite.

Campina Grande e a escala da festa

Em Campina Grande, a maior São João do mundo, a logística é outra. Barracas licenciadas vendem espetos industrializados ao lado de produções artesanais que disputam atenção. A fogueira simbólica na praça central é montagem para fotos e shows — o churrasco de verdade acontece nas ruas adjacentes, onde comerciantes locais instalam grelhas portáteis e espetos de dois metros.

João Pedro Alves, comerciante de carnes há vinte anos na cidade, diz que junho representa cerca de 30% do faturamento anual da casa. "A gente começa a preparar estoque em abril. Linguiça, carne de sol, costela — tudo que aguenta espeto", conta. Ele emprega oito temporários só para o mês da festa.

Segurança e tradição

Corpos de bombeiros de três estados consultados pelo Brasa reforçam orientações que se repetem todo junho: distância mínima de estruturas de madeira, extintor acessível e proibição de álcool para quem opera a fogueira. Em Goiás, a festa de Posse passou a exigir curso básico de combate a incêndio para voluntários que manejam o fogo — medida adotada depois de um incidente leve em 2023.

Apesar das regras, a tradição resiste. Famílias inteiras se revezam na vigilância da brasa, e crianças aprendem a manter distância antes de ganhar o primeiro espeto como recompensa. "Meu avô dizia que quem não respeita o fogo não merece a carne", brinca Lucas, 19 anos, voluntário na festa de Posse.

Além da carne: o cardápio completo do arraiá

O churrasco junino divide espaço com comidas que definem a estação: pamonha, curau, bolo de milho, canjica e o inevitable quentão. Nas três festas visitadas, a organização segue um padrão — doces e salgados de milho nas primeiras horas, espetos na fogueira depois que o público adulto se instala nas mesas de praça.

Na atualização desta reportagem, a prefeitura de Campina Grande confirmou que a edição 2026 manterá o formato híbrido adotado nos últimos dois anos: shows em palcos cobertos e festas de rua com fogueiras controladas em pontos específicos. A expectativa é superar os dois milhões de visitantes registrados em 2025.

Marina Junqueira

Repórter de cultura popular e festas regionais. Formada em comunicação pela UNICAMP, cobre tradições juninas e culinária de fim de semana desde 2018.